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20/10/2004 11:10
Olá, tudo bem gente?! Olha, o que vou escrever pode chocar muita gente, já imagino muita gente me criticando, me xingando, me chamando de monstro, talvez eu mesma me ache um monstro pelo o que eu fiz, mas eu estou cansada de me culpar pela vida frustada de minha mãe, e agora que estou um pouco mais fortalecida depois de seis anos consecutivos de terapia e internações, quero acabar com essa culpa, chega! Basta!
Depois de tudo o que eu fiz pela minha mãe depois que ela quebrou o braço, o que eu recebi dela foi algo muito próximo de um tapa na cara e um chute no estômago. Enfim chegou o dia dela retirar o gesso do braço, até então eu estava me desdobrando para manter a casa em ordem e levar minha vida normalmente, e nesse mesmo dia eu desabafei com ela, dizendo quanto eu estava cansada de cuidar da casa sozinha e ainda manter meus compromissos de trabalhar (várias vezes eu saia de casa super atrasada e não almoçava, só para manter a casa em ordem) e o que eu ouço dela?! ah, vai, só porque você limpou essa casa duas ou três vezes você vem dizer que está cansada?! Gente, duas ou três vezes?!!!! Quantos dias eu levantei cedo, cansada, só pra lavar quintal, lavar a louça, quem deu banho nela todos os dias, todo o dinheiro que gastei com ela, quantas noites eu fiquei acordada até mais tarde, passando roupa de madrugada, tendo que levantar as 5:30 da manhã para manter meus compromissos, sim porque eu não ia deixar de ir na minha terapia que lutei SOZINHA, sim sozinha, quando eu estava no fundo do poço, só pensando e até tentando o suicídio, NINGUÉM da minha família se manifestou, NINGUÉM, só quando fui internada no HC é que perceberam que eu não estava bem e mesmo assim, quando saí de lá, todos, até hoje, fingem que aquela época nunca existiu. Pra minha mãe todo o esforço que eu fiz, não valeu nada ou como ela mesmo disse: isso é obrigação sua. Depois disso ela passou o resto dos dias gemendo, mas gemendo mesmo, fingindo ser a pessoa mais doente do mundo, tinha horas que ela até chorava e eu muito tonta até acreditava que ela estava realmente sofrendo, pra ter uma idéia, ela até mancava, isso porque ela quebrou o braço... Quando eu estava por perto ela ficava passando a mão nas costas para parecer que ela estava com dor. Bom, eu cansei de dizer pra ela procurar um médico, quando eu estou realmente doente, eu procuro ajuda, vou ao médico, sei lá, isso é normal de todo mundo, quando se está sofrendo, todo mundo busca ajuda, ela não, ela gosta de se fazer de vítima, enfim, se ela gosta de sofrer e se fazer de vítima, o problema é dela, não vou mais entrar no joguinho dela e me sentir culpada por uma coisa que eu nem sei o que fiz. E engraçado é que ela ao invés de cultivar a amizade, a companhia de outras pessoas, ela faz exatamente ao contrario, trata todo mundo mal, como se todos tivessem a única e exclusiva função de cuidar dela 24 horas por dia, tenha dó!!!! Pois foi isso que recebi dela, só pouco caso; e como se não bastasse, ela começou a me olhar feio, olha eu tenho que dizer, minha mãe se comporta como neném, ela tenta chamar a atenção fazendo as cenas mais infantis do mundo, só pra ter uma idéia, ás vezes estou comendo na cozinha e ela passa e apaga a luz, só pra provocar, coisa de criança mesmo, ou então ela fica falando com o gato: gato, eu estou doente, não posso fazer tal coisa, claro que ela não diz isso ao gato, ou então ela começa a maltratar o gato, chamando ele de cagão e mijão, como que me ameaçando, é como se ela dissesse: você não vai cuidar de mim, então eu vou maltratar o seu gato, teve um dia que ela falou: vou levar esse gato embora daqui, me diz se isso não é uma ameaça infantil? Outro dia passou uma reportagem de um homem que abandonou o pai que morava sozinho e usava cadeira de rodas e apareceu o velho chorando e foram atrás do filho desse homem, já passando a idéia de que ele era um monstro por nem ao menos visitar o pai, no final da reportagem, esse homem foi preso e nessa hora minha mãe olhou pra mim com ódio e disse: se um dia você fizer isso comigo eu faço a mesma coisa, te coloco na cadeia! Tudo de bom né? Na última 5ª feira eu levantei com ela chorando ao telefone, gemendo de dor e cancelando um compromisso alegando estar morrendo de dor, depois de desligar o telefone, ela foi para o quarto de costura dela e começou a chorar e eu realmente acreditei que ela estivesse sofrendo muito e pra ajudar, porque mesmo depois dela me desprezar e começar a me olhar feio, eu continuei fazendo algumas coisas para manter a casa em ordem, eu entendo e reconheço que ela está velha e a casa é muito grande e afinal de contas eu também moro aqui e gosto de ver tudo em ordem, eu subi e comecei a arrumar o quarto dela, e qual não foi minha surpresa quando ela entrou no quarto e falando com a voz normal, sem gemer, que não precisava arrumar a cama que ela iria lavar os lençóis e a roupa da semana, meu, me deu um ódio, quando é que uma pessoa que está morrendo de dor pode lavar roupa? Se eu estivesse no lugar dela, a última coisa que eu iria pensar em fazer nesse mundo era lavar a roupa, que se dane a roupa, que fique tudo sujo, eu ia cuidar primeiro de minha saúde e depois da roupa. Eu já me senti uma otária de ter entrado no joguinho dela. No domingo eu não agüentei, estava eu arrumando minhas coisas, lavando minha roupa e eu abro a geladeira para comer um pedaço de pão que ela comprou, ela parou na minha frente e ficou me olhando feio e me medindo de cima em baixo, eu olhei pra ela e disse: o que foi? Eu não posso comer esse pão? Tudo bem, eu não vou comer, e devolvi o pão na geladeira e peguei um suco de caixinha que eu havia comprado com meu dinheiro durante muito tempo minha mãe passou a idéia de que eu não merecia comer a comida dela e esse foi um dos motivos que me fizeram parar de comer e entrar na anorexia. Depois de algumas horas, ela já com o almoço DELA pronto, eu fiz uma sopinha de pacotinho e fui perguntar pra ela se podia pegar um pouco da comida dela e qual não foi a surpresa ao ouvir ela dizer: você está querendo brigar é?, meu, o que eu fiz de errado????? O que se passa na cabeça dela??? Não entendi, mas falei um monte pra ela, falei que ela se fazia de vítima, que queria que os outros a tratassem que nem neném, que ela não era mais criança, que ela iria terminar seus dias sozinha num asilo pulguento e cheio de sarna, falei um monte e parei de cuidar da casa também, falei pra ela que se ela não reconhecia meu esforço para manter a casa em ordem, ela que se dane, que se vire sozinha. Aí veio a surpresa, ela parou de gemer, parou de gemer totalmente e começou a fazer as coisas sozinha. E todos os dias ela tenta um joguinho diferente, mas não vou cair não, cada vez que ela se faz de vítima, eu falo um monte, hoje de manhã, logo que eu saí da cama, ela pegou o telefone e falou para um corretor que queria vender a casa definitivamente, como ela já fez várias vezes, como querendo dizer: se eu vender a casa você não vai ter pra onde ir, só que eu falei pra ela que minha prima havia se casado e a cama dela estava vaga e que eu já tinha pra onde ir, falei rindo, na cara dela e falei mais um monte, dei graças a Deus que eu iria me livrar dela e ela começou a rir e disse a mesma coisa, que ela iria se livrar de mim, aí eu disse pra ela não esquecer de falar isso pro Juiz, que ela queria se livrar de mim, aí eu emendei um monte de frases: não esquece de dizer que quando eu era criança você falava com todo o ódio do mundo, que tinha vontade de dar paulada na minha cabeça até eu morrer; que você me chamava de prostituta quando eu tinha 15 anos, que você expulsou minha irmã de casa sem nem ao menos ela ter pra onde ir; que você ficava nervosa com meu pai e descontava em cima de mim e de minha irmã; falei mais um monte de frases que saíram de sua boca e que eu nunca me esqueci e acho que nunca vou esquecer e que me fizeram acreditar que eu não tinha o mínimo valor. Chega! Depois de 30 anos eu estou invertendo a situação, já não deixo ela me manipular, cada vez que ela tenta impor alguma coisa eu falo: eu moro aqui e vou fazer as coisas de meu jeito e se isso te incomoda, pode me expulsar de casa, assim como você fez com minha irmã. Eu sei que deve ter um monte de gente achando um absurdo isso o que eu estou fazendo com ela, mas depois de seis anos de terapia eu não quero mais morrer ou sumir pra acabar com o sofrimento dela, pois a vida inteira ela passou a idéia de que eu, minha irmã e meu pai, éramos um estorvo na vida dela. Sabe, hoje eu começo a sonhar com um futuro pra mim, eu estou começando a fazer aquilo que eu quero, sem pensar no que ela vai pensar ou achar, dane-se a opinião dela, apesar de ser minha mãe de sangue, ela fez um papel de carrasco comigo, me torturou, me manipulou, sinceramente, eu gostaria muito que ela morresse, sumisse do mapa, da minha vida, do mundo. Minha vida começa agora, quero estudar, aprender, viajar, conhecer lugares novos, culturas diferentes, existe tanta coisa interessante nesse mundo, porque tenho que ficar amarrada a ela que sempre me tratou tal mal? As vezes eu até me sinto uma adolescente cheia de sonhos, de vontade de lutar por um mundo melhor, sabe, eu ando lendo muito sobre política, não sei de onde veio essa vontade, mas eu vejo as pessoas pobres sofrerem tanto, sempre sem direito a nada ou algo ou alguém que as defendam das injustiças do mundo. Outro dia eu vi uma reportagem na TV mostrando a gravação de uma velhinha de aproximadamente 122 anos que morava no meio de mato de algum lugar desse Brasil, que ficou encantada ao ouvir a gravação de sua voz, achando que aquela máquina tinha o poder de conversar com ela e responder suas dúvidas, num determinado momento do diálogo dela com o gravador ela pergunta: onde está meu pai?; e isso me tocou tanto, uma pessoa tão simples, num lugar com tão poucos recursos, e eu pensei: meu Deus, será que não existe ninguém que possa cuidar dessa pessoa?. É, estranho, eu ainda choro por qualquer motivo, tem dias em que eu começo a chorar e o sentimento vem tão forte, que eu fico completamente paralisada, não consigo falar, as vezes não consigo nem sair do lugar, outro dia eu tive que resolver umas questões trabalhista e não sei porque me emocionei, comecei a chorar e tinha que falar com as pessoas e as pessoas olhavam pra mim sem saber o que fazer, pois eu não conseguia nem falar, ficou todo mundo olhando pra mim e eu sem nem ao menos conseguir sair do lugar, foi horrível. No serviço eu tento me segurar o máximo pra não começar a chorar, pois se começar, eu sei que não vou mais conseguir atender as chamadas, meu emocional ainda é muito desequilibrado, minha médica diz que o que realmente me prejudica é o meu emocional, se não fosse isso, eu já estaria bem de vida, eu também acredito nisso, por isso dou tanta importância para meu tratamento; há anos atrás eu me fazia de vítima igual a minha mãe, pois aprendi a chamar a atenção dos outros dessa maneira, mas agora eu não quero mais ser vista como uma fracota, quero ser forte, quero enfrentar a vida, as pessoas, as dificuldades, eu sei que sou capaz, agora eu sei que dentro de mim existe muita força, eu ainda não sei lidar com ela direito e muitas vezes essa força vem em forma de revolta, sei que esse não é o caminho, mas estou batalhando para crescer emocionalmente.
Beijos
Ale
enviada por Alesinha
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